Uma Leitura Canônica das Escrituras

por Rev. Jeferson A. Pereira

Quase todo mundo quer ler melhor. E o curioso é que até quem não tem o hábito da leitura carrega esse desejo em algum lugar escondido. Aquela vontade meio envergonhada de gostar de algo que ainda é um desafio. Ler de verdade, ler com gosto.

Mas o desafio vai além de simplesmente gostar de ler. Existe uma questão mais sutil, e talvez mais honesta, que poucos falam abertamente: a importância de escolher o que vai ler.

Na época do seminário, essa tensão era quase palpável. Circulava entre os corredores uma frase dita em voz baixa, com um sorriso de cumplicidade entre os alunos: “hoje leio o que me mandam, um dia lerei o que quero…” Havia nessas palavras uma resignação gentil, mas também uma esperança viva, a de que chegaria o tempo das leituras escolhidas com o coração, não apenas cumpridas com a cabeça.

E esse tempo chega. Para muitos, ele já chegou.

A questão é o que fazemos com essa liberdade quando ela aparece. Se corremos para o que alimenta de verdade, ou se ficamos apenas circulando entre títulos que impressionam, mas não transformam.

Deus nos chamou para uma fé viva, e a leitura que nos aproxima dele deveria ter esse mesmo sabor — de algo que não apenas informa, mas que acende. Como aconteceu com os discípulos no caminho de Emaús, que sentiram o coração arder sem nem entender direito por quê.
Talvez seja esse o critério mais honesto para escolher um livro: ele faz arder algo em você?

Você lê a Bíblia?

A Bíblia Sagrada já foi o livro mais vendido, o mais perseguido, o mais atacado. Mas, ao que parece, o menos compreendido. Atribuir à Bíblia erros e contradições é uma estratégia utilizada por seus inimigos desde a sua formação e aparecimento nos primórdios dos tempos. Logo, fazer uma leitura correta (canônica) é o caminho mais nobre que algum leitor possa traçar.

É estranho que tantas vezes o cristão que reconhece o fato teológico da autoridade da Escritura é a própria pessoa que não vive sob essa autoridade como deveria. Há hoje uma grande necessidade de crentes que não só creiam na autoridade da Bíblia, mas que também vivam conforme a Escritura os manda viver.

VAN HORN

No cenário cristão-evangélico da Igreja brasileira atual, observa-se (infelizmente) que a grande maioria da membresia das Igrejas não compreende conceitos básicos e muito menos tem o hábito da leitura da Bíblia Sagrada. Constatou-se que tal comportamento não é exclusivo do povo evangélico brasileiro. O Instituto Americano de Cultura e Fé, nos Estados Unidos, que entrevistou em 2017 seis mil pessoas, e chegou a conclusão que os fiéis apesar de frequentarem a igreja regularmente, não conhecem a Bíblia em detalhes, ignorando e até contrariando os ensinamentos das Escrituras sobre princípios morais e hábitos cotidianos. Menos da metade (46%) afirmam ler a Bíblia pelo menos uma vez por semana.

COMO MUDAR ISSO EM NOSSAS VIDAS?

Precisamos querer mudar… Sim, não basta querer, por isso quero compartilhar com você algumas dicas depois de 30 anos de caminhada com Cristo e apaixonado pelas Sagradas Escrituras. É importante destacar que esse não é o mapa da mina. Essas não são as únicas dicas, orientações e bons conselhos, mas serviram para minha vida devocional, podem servir para você.

1. Seja consistente.

Estabeleça na sua vida devocional um padrão de consistência quando se tratar de leitura. Separe um horário, um local e dedique aquele tempo com excelência na sua busca pelas Sagradas Letras que podem te fazer sábio para salvação em Cristo Jesus.

Ser consistente na leitura bíblica é reconhecer que a Palavra de Deus foi dada de modo ordenado, suficiente e completo. A Escritura, como ensina a Confissão de Fé de Westminster, “contém tudo o que é necessário para a glória de Deus e para a salvação, fé e vida do homem” (CFW I.6). Portanto, a constância na leitura não é mero exercício de piedade pessoal, mas um ato de submissão ao Deus que fala de maneira clara e eficaz por meio de Sua revelação escrita.

A Bíblia não é uma coleção dispersa de textos devocionais, mas um corpo canônico, coerente e interligado, em que cada livro contribui para o desdobramento da história da redenção. Ler de forma canônica é seguir a trilha da revelação divina — desde a criação, passando pela queda, pela promessa, pela encarnação do Verbo e pela consumação futura em Cristo. Essa trajetória só é percebida por aquele que lê com constância, pois o sentido das partes emerge da compreensão do todo. A confissão afirma que “o conselho de Deus […] está expressamente declarado ou necessariamente deduzido da Escritura” (CFW I.6), e é essa convicção que dá fundamento à leitura perseverante.

A consistência, portanto, é teológica antes de ser apenas disciplinar. O leitor que se mantém fiel ao texto sagrado reconhece que o Espírito Santo, que inspirou cada palavra, também ilumina o entendimento do crente ao longo do tempo. É na constância que o Espírito conduz o leitor à unidade da fé e à maturidade em Cristo. Assim como a Confissão ensina que o testemunho interno do Espírito é “suficiente para assegurar plenamente a sua veracidade divina” (CFW I.5), também é Ele quem sustenta o coração nas horas de aridez espiritual.

Ser consistente na leitura canônica é ainda um exercício de humildade e de obediência à ordem divina. A regularidade na Palavra molda a mente e o coração, preserva da superficialidade e conduz a uma compreensão mais profunda do pacto de graça revelado página após página. A constância transforma o leitor em intérprete piedoso e em adorador obediente, pois quanto mais se conhece a revelação, mais se ama o Revelador.

Por isso, sê constante: lê a Escritura com regularidade, dentro do seu todo canônico, com oração e dependência do Espírito. O mesmo Deus que revelou Sua vontade por meio dos profetas e apóstolos é fiel para edificar, por Sua Palavra, todos os que permanecem firmes no caminho da leitura e da meditação. “Toda a Escritura é divinamente inspirada e útil” (2 Tm 3.16) — e sua eficácia se manifesta plenamente na vida de quem lê com consistência e fé.

2. Seja conciente.

Conheça seus limites. Conhecer seus limites é o primeiro passo para uma jornada de leitura que realmente dure. É tentador chegar animado e já querer ler o Antigo Testamento inteiro em um fim de semana, ou decorar o Salmo 119 na primeira semana. Mas o entusiasmo sem planejamento costuma durar pouco, e a frustração que vem depois é capaz de afastar qualquer um da leitura por um bom tempo.

A sabedoria está nas pequenas porções. Um texto bem digerido vale muito mais do que dez capítulos lidos às pressas, sem que nada tenha ficado de verdade. E por onde começar? Comece com alguém de confiança. Um amigo que já conhece o caminho torna qualquer jornada mais leve.

Lucas é um desses amigos. Médico de formação, investigador por natureza, ele chegou aos relatos do evangelho não como alguém que simplesmente repetiu o que ouviu, mas como alguém que foi atrás, que perguntou, que verificou. Ele mesmo conta isso logo no início do seu evangelho, que pesquisou tudo cuidadosamente, desde o princípio, para que o leitor tivesse certeza do que estava lendo.

Essa seriedade faz toda a diferença. Lucas escreve com a precisão de quem respeita o leitor, e com a sensibilidade de quem entende que por trás de cada relato há vidas reais, histórias reais, um Deus real agindo na história humana. O evangelho de Lucas e o livro de Atos são, juntos, uma obra de fôlego e, ao mesmo tempo, acessíveis, calorosos, cheios de personagens que parecem saltar das páginas.

Um bom começo para qualquer leitor!

3. Seja paciente.

Conheça os tempos e as épocas. Seja paciente. E mais do que isso, aprenda a conhecer seus próprios tempos.

Existe uma sabedoria silenciosa em quem sabe o ritmo certo para cada coisa. É ela que faz a diferença entre quem conclui uma maratona e quem desiste no décimo quilômetro. É ela que permite saborear cada detalhe de uma refeição especial, sem pressa, sem pular etapas. E com a leitura não é diferente.

Há épocas em que os leitores mais dedicados conseguem feitos que parecem impossíveis para o resto do ano. No último domingo de setembro de 2024, lancei um desafio para a nossa igreja: ler a Bíblia inteira em 90 dias. Em três meses, percorreríamos juntos os 66 livros do cânon sagrado, compartilhando no grupo da igreja nossas impressões, descobertas e o que Deus ia falando ao coração de cada um ao longo do caminho.

Ninguém foi obrigado. Foi um convite, e quem quisesse abraçar a jornada sabia que teria companhia.

Nem todos foram, é verdade. Mas as dezenas que decidiram caminhar juntas viveram algo difícil de descrever para quem ficou de fora. Trocaram indignações quando Israel falhava mais uma vez. Sorriram juntos quando a graça de Deus rompeu as trevas de um jeito inesperado. Sentiram aquela cumplicidade de quem enfrenta o mesmo deserto lado a lado.

No dia 31 de dezembro, essas pessoas se agradeciam mutuamente por terem “atravessado o Mar Vermelho, o Jordão e tantos outros desertos” naqueles noventa dias. Com cansaço, com alegria, e com a certeza de quem chegou ao outro lado.

Dessa forma, compreendemos que nem todos os desafios são para qualquer época ou tempo. Graças a Deus “deu tempo”. Graças a Deus, a igreja abraçou o convite, a disposição de Deus veio sobre seu povo e no final, todos saímos abençoados.

4. Seja Insistente

Nem sempre a primeira leitura de um texto bíblico traz clareza; muitas vezes ela traz perguntas, estranhamentos, aparentes contradições.
Em vez de fugir dessas questões, seja insistente: trate cada dúvida como um chamado de Deus para voltar ao texto, orar de novo, comparar passagens e buscar ajuda de outros leitores da Bíblia.

Uma forma muito prática de cultivar essa insistência santa é ter, ao lado da Bíblia, um caderno exclusivo para suas anotações.
Autores que ensinam métodos de estudo bíblico destacam que registrar por escrito aquilo que vemos, pensamos e perguntamos enquanto lemos torna o estudo mais ativo, ajuda a reter melhor o conteúdo e facilita a aplicação posterior.

Um caderno a serviço da Palavra

Alguns mestres de estudo bíblico, como Howard Hendricks, mostram que o caminho saudável de leitura passa por três movimentos: observar, interpretar e aplicar o texto.
Esse processo fica muito mais concreto quando você lê com uma caneta na mão, anotando o que vê no texto, as perguntas que surgem e as possíveis aplicações que o Espírito for iluminando durante as leituras.

Há quem mantenha, há anos, um caderno de estudo no qual registra a data, a passagem lida, comentários versículo a versículo, dúvidas e até temas que deseja acompanhar ao longo da Bíblia, retornando depois para perceber como suas compreensões amadureceram ao longo do tempo.

Outros materiais de apoio ao estudo bíblico recomendam expressamente ter um diário ou notebook para anotar os textos estudados, as orações feitas, as perguntas levantadas e as respostas que Deus vai concedendo pela Palavra.

Como usar esse caderno na prática

Você pode usar esse caderno de forma simples, mas intencional:

  • Separe um único caderno só para sua leitura bíblica, para que ele se torne uma espécie de “memória espiritual” da sua caminhada nas Escrituras.
  • No topo da página, escreva a data e a passagem lida naquele dia; isso ajuda a organizar e, depois, a revisar o caminho percorrido.
  • Leia o texto com calma e, à medida que avança, vá anotando: palavras que se repetem, contrastes, promessas, ordens, ligações com outras passagens e, sobretudo, as dúvidas que surgirem.
  • Quando encontrar algo que não entendeu, marque com um “?” visível e deixe espaço em branco logo abaixo para voltar ali mais tarde, depois de novos estudos ou conversas com outros estudantes da Bíblia.
  • Ao final da semana (ou do mês), volte às páginas anteriores e revise suas perguntas; pesquise em boas introduções, comentários ou dicionários bíblicos, e leve essas questões para o pastor, professores de teologia ou irmãos mais maduros na fé.
  • Quando uma dúvida for esclarecida, escreva a resposta no mesmo lugar, indicando a passagem, o recurso consultado ou a conversa que o ajudou, para que você veja, ao longo do tempo, como o Senhor tem iluminado o seu entendimento.

Textos sobre “Bible journaling” (diários de Bíblia) lembram que escrever o que Deus lhe mostra torna a leitura menos apressada e mais contemplativa: você não apenas “passa” pelo texto, mas permanece nele, responde em oração e registra o que o Senhor lhe diz.
Guias práticos de estudo bíblico também ressaltam que essas anotações formam um arquivo precioso para futuras revisões, sermões, estudos em grupo e, sobretudo, para recordar a fidelidade de Deus em diferentes estações da sua vida.

Insistência que se transforma em comunidade

Ser insistente não significa caminhar sozinho!
Seu caderno de anotações pode (quando apropriado) ser aberto em casa, na igreja, em um grupo de estudo, para que perguntas e descobertas sejam compartilhadas, corrigidas e enriquecidas pela comunhão dos santos.

Ao anotar dúvidas hoje para resolvê‑las com paciência amanhã, você está confessando que não domina a Bíblia, mas que deseja ser dominado por ela.
Você reconhece que precisa voltar ao texto, ouvir de novo, comparar passagens, aprender com outros leitores e, acima de tudo, depender do Espírito Santo para iluminar o coração – e é exatamente assim que a leitura canônica se torna, pouco a pouco, um hábito persistente e frutífero.

Como eu disse no início, esse não é o mapa da mina, não é a trilha definitiva, mas pode muito bem ser a trilha decisiva para você. Lembre-se do que o pastor Jonas madureira disse em seu sermão “sobre começos difícies”

Meus irmãos, existe um trabalho de Satanás para impedir as pessoas de se aprofundarem nas escrituras. E esse trabalho começa com a celebração da ignorância sob o nome de simplicidade. Ignorância tem nome. Se chama ignorância. Simplicidade não tem nada a ver com ignorância. Uma pessoa pode ser sábia, pode ser inteligente, pode conhecer, ter conhecimento e ser simples. A simplicidade não é uma marca de burrice, é uma marca de caráter, de pessoas que são fáceis, fáceis de ensinar, fáceis de aprender, porque aprenderam lendo, lendo, lendo e descobriram o valor da leitura. sofreram para ler o que leem, porque ninguém aprende a ler sem sofrimento.

PR. JONAS MADUREIRA

Não se renda, não se conforme, não se venda!