Simul Justus et Peccator
Martinho Lutero
Martinho Lutero, um homem verdadeiro!
O âmago da teologia de Lutero era que, em Jesus Cristo, Deus deu-se a si mesmo, absolutamente e sem reservas, para nós. Entretanto, assim como Lutero não aceitava argumento algum para a existência de Deus, ele também não propôs uma “teoria” consistente sobre a expiação. Nunca é o suficiente saber apenas que Cristo morreu, ou mesmo por que morreu. Tal conhecimento é resultante de uma “fé meramente histórica”, a qual não pode salvar. Os demônios também possuem suas teorias acerca da expiação; eles crêem e tremem! A fé que salva deve penetrar até uma apropriação pessoal. Apenas quando reconhecermos que Cristo foi dado pro me, pro nobis (“por mim”, “por nós”), teremos discernido a importância da realização de Cristo.
Diante do desejo de reformar a Igreja, Lutero jamais quis fundar uma “nova igreja”.
De acordo com Timothy George em a Teologia dos Reformadores (1993), a última coisa que Martinho Lutero desejava fazer em sua vida era fundar uma nova igreja. Ele não se via como um inovador que pretendia criar uma nova estrutura, mas sim como um reformador que buscava corrigir os desvios de uma instituição que considerava corrupta.
Lutero sempre se considerou um membro verdadeiro e fiel da igreja una, santa, católica e apostólica. Seu protesto contra o sistema papal foi motivado pelo desejo de restaurar a “igreja verdadeira e primitiva” e a pureza do evangelho, agindo “por causa da igreja” e não contra a existência dela.
Outros pontos cruciais destacados pela história incluem:
- Desgosto por rótulos denominacionais: Lutero expressou um profundo incômodo com o fato de seus seguidores serem chamados de “luteranos”. Ele pediu explicitamente que as pessoas não usassem seu nome, questionando: “Como eu, miserável saco fétido de larvas que sou, cheguei ao ponto em que as pessoas chamam os filhos de Cristo por meu perverso nome?”.
- Identidade cristã: Para ele, o termo correto para identificar os fiéis era simplesmente “cristãos”.
- A Palavra como agente: Lutero não se via como um agente de revolução eclesiástica, mas como um servo que apenas ensinou, pregou e escreveu a Palavra de Deus, acreditando que a própria Palavra foi a responsável por enfraquecer o papado enquanto ele “bebia cerveja de Wittenberg”.
- Fidelidade à Igreja Mãe: Mesmo em meio ao conflito com Roma, ele se descrevia como um fiel e obediente servo da igreja, enfatizando que seu ensino não era seu, mas originário da Bíblia.
Para entender essa postura, podemos usar a metáfora de um arquiteto que encontra um edifício antigo e histórico cujas fundações estão cobertas de lixo e cujas paredes estão rachadas; a intenção dele não é demolir o prédio para construir um novo, mas sim remover os entulhos e restaurar a estrutura original para que ela volte a servir ao seu propósito inicial.
Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de Deus; não fiz mais nada.
E então, enquanto eu dormia, ou bebia cerveja de Wittenberg com meu Filipe e meu Amsdorf, a Palavra enfraqueceu tão intensamente o papado que nenhum príncipe ou imperador jamais fez estrago assim. Não fiz nada. A Palavra fez tudo.
— Martinho Lutero
Lutero nasceu em 1483 e foi destinado ao Direito, mas tornou-se monge e doutor em teologia após profundas lutas espirituais. Sua teologia não foi aprendida de uma só vez, mas forjada em momentos de pavor, desespero e ansiedade espiritual que ele chamava de Anfechtungen. Esses ataques espirituais o levaram a meditar profundamente nas Escrituras para encontrar um Deus misericordioso.
Lutero foi conhecido como o homem que redescobriu Deus e mudou o mundo!
Seria inadequado negligenciar que Martinho Lutero, figura central na Reforma Protestante, deixou um legado profundamente ambíguo e contraditório que exige análise rigorosa, não apologética. Sua trajetória intelectual ilustra a realidade incômoda de que grandes mudanças históricas procedem frequentemente de homens cujos comprometimentos éticos eram problemáticos e, em certos casos, abomináveis.
Quanto à linguagem e retórica, Lutero desenvolveu um estilo notoriamente agressivo e virulento. Sua prosa caracterizava-se por invectivas escatológicas, expressões brutais e um tom deliberadamente ofensivo que, embora eficaz para polêmica religiosa da época, levanta questões hermenêuticas sobre como o caráter retórico influencia a responsabilidade moral do escritor. Seus críticos contemporâneos já observavam um padrão de intolerância que se estendia além do âmbito teológico à causa de Cristo.
A trajetória de Martinho Lutero constitui um caso paradigmático que exige que os protestantes contemporâneos enfrentem uma verdade desconfortável: as mesmas estruturas teológicas e hermenêuticas que permitiram a democratização do acesso à Bíblia também criaram condições para manifestações de intolerância. Sua linguagem agressiva não era meramente um “detalhe estilístico”, mas expressava uma disposição intelectual para a dominação e coerção – disposição que se manifestou contra camponeses, anabatistas e, finalmente, contra judeus.
Isto não significa que devamos desconsiderar suas contribuições à pregação do Evangelho e à acessibilidade da Palavra de Deus. Significa, ao contrário, que devemos resistir à tentação de mitologia hagiográfica e reconhecer que até mesmo instrumentos significativos da providência divina podem ser manejados por homens cujas falhas morais têm peso histórico real. Como afirma adequadamente a teologia protestante, “não nos esforçamos em homens, mas em Cristo”, mas isto não nos absolve da responsabilidade de análise histórica honesta e crítica teológica das instituições que eles fundaram.
