Uma Semana na Companhia da Providência

por Rev. Jeferson A. Pereira
Há semanas que passam muito rápido e há semanas que ficam. A semana que se encerrou hoje, 17 de abril, pertence definitivamente à segunda categoria… Vou tentar explicar.
Desde a última segunda-feira, dia 13, estive percorrendo os corredores do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ) para mais um módulo intensivo do MDiv. De verdade, chegar até lá nunca é simples. A viagem, com seus percalços habituais, cobra um preço que o corpo (desse idoso?) sente antes mesmo que a mente possa se preparar para o que está por vir. Mas, como tantas vezes acontece no caminho da formação teológica, o que parecia difícil serviu apenas de moldura para o que se revelaria uma semana extraordinariamente rica, para glória de Deus.

 9 Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; 10 que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade; 11 que chamo a ave de rapina desde o Oriente e de uma terra longínqua, o homem do meu conselho. Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este propósito, também o executarei.
Isaías 46:9-11

O que aprendemos?

O módulo desta vez foi dedicado à Doutrina da Providência, esse terreno vasto e profundo onde a soberania de Deus se encontra com a história humana. Sob a tutela cuidadosa e exigente do Dr. Heber Carlos de Campos Júnior, nossa turma de 16 alunos foi conduzida não apenas pelos corredores conceituais da doutrina, mas pelo seu peso existencial e suas implicações pastorais. O Dr. Heber tem uma habilidade rara: a de tornar o rigor acadêmico habitável, sem jamais abrir mão da precisão que o assunto exige. Sua percepção sobre a necessidade de traduzir profundos conceitos teológicos em aplicação pastoral revela uma consciência teológica madura e incomum, e essa ponte entre a academia e o seio da igreja é de valor formativo imensurável para quem, além dos livros e cursos, pastoreia uma congregação.

Nem tudo são flores

Compreender a Providência é, antes de tudo, compreender como Deus sustenta, governa e dirige todas as coisas, sem violentar as causas secundárias, sem abdicar de Sua soberania, sem se tornar o autor do mal. É uma doutrina que provoca humildade intelectual tanto quanto confiança espiritual. Explico, ou tento, por mais que você reflita sobre uma doutrina, na maioria das vezes é desafiado a repensar sobre isso ao sentar em uma das cadeiras do CPAJ. No fim, parece que é a primeira vez que está ouvindo sobre ela.

Mas nenhuma doutrina existe no vácuo. Parte significativa de nossos estudos foi dedicada aos adversários históricos e contemporâneos da Providência reformada. O Molinismo, com sua proposta de uma ciência média divina, pela qual Deus conhece os contrafactuais da liberdade criatura. Ele apresenta uma alternativa sofisticada e sedutora, amplamente defendida em círculos acadêmicos evangelicais. Estudá-lo seriamente é uma necessidade, não um exercício opcional. Em seguida, enfrentamos outro desafio interessante: o Teísmo Aberto, corrente que, em seu esforço por preservar a genuinidade da liberdade libertária e da relacionalidade divina, termina por redimensionar drasticamente os atributos clássicos de Deus, comprometendo Sua presciência, Sua imutabilidade e, em última instância, a segurança do próprio governo providencial.

Confrontar essas posições com seriedade teológica, sem caricaturá-las mas sem capitular diante delas, foi um dos exercícios mais formativos da semana.

Susurros de refrigério em meio a dias turbulentos

Mas a semana não foi feita apenas de conceitos e leituras. Finalmente pude jantar com o Pr. Daniel Cesário e família, já fazia três anos que não nos encontrávamos pessoalmente. Foi, por graça, um daqueles momentos em que a teologia desce da página e se senta à mesa. Conversas que alimentam tanto quanto o pão, comunhão que lembra que a formação ministerial não é apenas acadêmica, mas profundamente eclesial e humana. Preciso agradecer! Obrigado, “Dani” meu pastor, por me deixar fazer parte da família. Sandrinha, seu abraço é sempre mais do que um lenitivo, é a lembrança da Graça que acolhe e conforta. Vinícius, meu irmão de guerra, que fez a gentileza de abrir mão de uma noite tranquila de estudos para enfrentar o metrô da grande São Paulo e finalmente conhecer essa família incrível. E Ezequiel, de Burkina Fasso, estudando no Brasil até dezembro, completou essa mesa onde pudemos compartilhar da bondade e do cuidado providencial de Deus.

Volto diferente. Não dramaticamente, a formação teológica raramente opera por revoluções súbitas… Ela é paciente e consistente. Volto com a sensação de que algo foi assentado mais firmemente: que vivemos sob um governo que não improvisa, que não aprende por tentativa e erro, que não é surpreendido pelos contrafactuais da nossa liberdade. A Providência não é uma ideia consoladora inventada para suavizar a angústia. É um dado da revelação, defendido com rigor, vivido com gratidão. Expressão de poder e soberania.

Que venha o próximo módulo… 

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