Quase todo mundo quer ler melhor. E o curioso é que até quem não tem o hábito da leitura carrega esse desejo em algum lugar escondido. Aquela vontade meio envergonhada de gostar de algo que ainda é um desafio. Ler de verdade, ler com gosto.
Mas o desafio vai além de simplesmente gostar de ler. Existe uma questão mais sutil, e talvez mais honesta, que poucos falam abertamente: a importância de escolher o que vai ler.
Na época do seminário, essa tensão era quase palpável. Circulava entre os corredores uma frase dita em voz baixa, com um sorriso de cumplicidade entre os alunos: “hoje leio o que me mandam, um dia lerei o que quero…” Havia nessas palavras uma resignação gentil, mas também uma esperança viva, a de que chegaria o tempo das leituras escolhidas com o coração, não apenas cumpridas com a cabeça.
E esse tempo chega. Para muitos, ele já chegou.
A questão é o que fazemos com essa liberdade quando ela aparece. Se corremos para o que alimenta de verdade, ou se ficamos apenas circulando entre títulos que impressionam, mas não transformam.
Deus nos chamou para uma fé viva, e a leitura que nos aproxima dele deveria ter esse mesmo sabor — de algo que não apenas informa, mas que acende. Como aconteceu com os discípulos no caminho de Emaús, que sentiram o coração arder sem nem entender direito por quê.
Talvez seja esse o critério mais honesto para escolher um livro: ele faz arder algo em você?
Você lê a Bíblia?
A Bíblia Sagrada já foi o livro mais vendido, o mais perseguido, o mais atacado. Mas, ao que parece, o menos compreendido. Atribuir à Bíblia erros e contradições é uma estratégia utilizada por seus inimigos desde a sua formação e aparecimento nos primórdios dos tempos. Logo, fazer uma leitura correta (canônica) é o caminho mais nobre que algum leitor possa traçar.
É estranho que tantas vezes o cristão que reconhece o fato teológico da autoridade da Escritura é a própria pessoa que não vive sob essa autoridade como deveria. Há hoje uma grande necessidade de crentes que não só creiam na autoridade da Bíblia, mas que também vivam conforme a Escritura os manda viver.
No cenário cristão-evangélico da Igreja brasileira atual, observa-se que a grande maioria da membresia das Igrejas não compreende conceitos básicos e muito menos tem o hábito da leitura da Bíblia Sagrada. Constatou-se que tal comportamento não é exclusivo do povo evangélico brasileiro. O Instituto Americano de Cultura e Fé, nos Estados Unidos, que entrevistou em 2017 seis mil pessoas, e chegou a conclusão que os fiéis apesar de frequentarem a igreja regularmente, não conhecem a Bíblia em detalhes, ignorando e até contrariando os ensinamentos das Escrituras sobre princípios morais e hábitos cotidianos. Menos da metade (46%) afirmam ler a Bíblia pelo menos uma vez por semana.
COMO MUDAR ISSO EM NOSSAS VIDAS?
Precisamos querer mudar… Sim, não basta querer, por isso quero compartilhar com você algumas dicas depois de 30 anos de caminhada com Cristo e apaixonado pelas Sagradas Escrituras. É importante destacar que esse não é o mapa da mina. Essas não são as únicas dicas, orientações e bons conselhos, mas serviram para minha vida devocional, podem servir para você.
1. Seja consistente.
Estabeleça na sua vida devocional um padrão de consistência quando se tratar de leitura. Separe um horário, um local e dedique aquele tempo com excelência na sua busca pelas Sagradas Letras que podem te fazer sábio para salvação em Cristo Jesus.
2. Seja conciente.
Conheça seus limites. Conhecer seus limites é o primeiro passo para uma jornada de leitura que realmente dure. É tentador chegar animado e já querer ler o Antigo Testamento inteiro em um fim de semana, ou decorar o Salmo 119 na primeira semana. Mas o entusiasmo sem planejamento costuma durar pouco, e a frustração que vem depois é capaz de afastar qualquer um da leitura por um bom tempo.
A sabedoria está nas pequenas porções. Um texto bem digerido vale muito mais do que dez capítulos lidos às pressas, sem que nada tenha ficado de verdade. E por onde começar? Comece com alguém de confiança. Um amigo que já conhece o caminho torna qualquer jornada mais leve.
Lucas é um desses amigos. Médico de formação, investigador por natureza, ele chegou aos relatos do evangelho não como alguém que simplesmente repetiu o que ouviu, mas como alguém que foi atrás, que perguntou, que verificou. Ele mesmo conta isso logo no início do seu evangelho, que pesquisou tudo cuidadosamente, desde o princípio, para que o leitor tivesse certeza do que estava lendo.
Essa seriedade faz toda a diferença. Lucas escreve com a precisão de quem respeita o leitor, e com a sensibilidade de quem entende que por trás de cada relato há vidas reais, histórias reais, um Deus real agindo na história humana. O evangelho de Lucas e o livro de Atos são, juntos, uma obra de fôlego e, ao mesmo tempo, acessíveis, calorosos, cheios de personagens que parecem saltar das páginas.
Um bom começo para qualquer leitor!
3. Seja paciente.
Conheça os tempos e as épocas. Seja paciente. E mais do que isso, aprenda a conhecer seus próprios tempos.
Existe uma sabedoria silenciosa em quem sabe o ritmo certo para cada coisa. É ela que faz a diferença entre quem conclui uma maratona e quem desiste no décimo quilômetro. É ela que permite saborear cada detalhe de uma refeição especial, sem pressa, sem pular etapas. E com a leitura não é diferente.
Há épocas em que os leitores mais dedicados conseguem feitos que parecem impossíveis para o resto do ano. No último domingo de setembro de 2024, lancei um desafio para a nossa igreja: ler a Bíblia inteira em 90 dias. Em três meses, percorreríamos juntos os 66 livros do cânon sagrado, compartilhando no grupo da igreja nossas impressões, descobertas e o que Deus ia falando ao coração de cada um ao longo do caminho.
Ninguém foi obrigado. Foi um convite, e quem quisesse abraçar a jornada sabia que teria companhia.
Nem todos foram, é verdade. Mas as dezenas que decidiram caminhar juntas viveram algo difícil de descrever para quem ficou de fora. Trocaram indignações quando Israel falhava mais uma vez. Sorriram juntos quando a graça de Deus rompeu as trevas de um jeito inesperado. Sentiram aquela cumplicidade de quem enfrenta o mesmo deserto lado a lado.
No dia 31 de dezembro, essas pessoas se agradeciam mutuamente por terem “atravessado o Mar Vermelho, o Jordão e tantos outros desertos” naqueles noventa dias. Com cansaço, com alegria, e com a certeza de quem chegou ao outro lado.
