PESSOAS COMUNS

por Rev. Jeferson A. Pereira

Essa semana estava lendo alguns artigos e me deparei com esse sobre “Pessoas comuns”. O original está em espanhol, mas eu traduzi com alguns ajustes. Espero que edifique sua vida!

É surpreendente descobrir que dois dos renomados “Pilares” (Gálatas 2:9) da igreja, Pedro e João, eram “homens sem letras e do povo”, ou “ἄνθρωποι ἀγράμματοί εἰσιν καὶ ἰδιῶται” (Atos 4:13). A palavra que mais frequentemente é traduzida como “sem educação”, “ignorante” ou “sem instrução” (ἀγράμματοί) significa literalmente “sem letras”, ou seja, analfabeto. A palavra para “comum”, “sem preparo” ou “vulgo” (ἰδιῶται) carrega a ideia de “não profissional”. Neste contexto, refere-se a pessoas que não faziam parte do conselho de líderes religiosos judeus. Tyndale traduziu como “leigos”. Sabemos que quatro dos doze apóstolos eram pescadores, um era um revolucionário político, um era cobrador de impostos e um era ladrão. As Escrituras não fornecem informações sobre os outros cinco. Todos foram escolhidos depois que Jesus passou a noite inteira orando (Lucas 6:12). Deus escolheu “homens sem letras e do povo” por uma razão.

Neste trecho, Pedro e João haviam sido presos pelos líderes religiosos por pregarem sobre a ressurreição de Jesus, depois de terem curado um mendigo coxo na entrada do templo. No dia seguinte, foram interrogados pelo sumo sacerdote, pelos anciãos e pelos escribas sobre o milagre. A resposta de Pedro levou os líderes a concluírem que ele era um homem “sem letras” e “do povo”, o que criava um contraste claro com a linhagem religiosa deles. Se Pedro e João eram, estritamente falando, analfabetos, isso ainda é debatido, mas é evidente que não eram vistos em sua cultura como pessoas cultas ou pertencentes à elite. (Segundo o estudioso judeu Meir Bar-Ilan, a taxa de alfabetização na Palestina do primeiro século era de apenas cerca de 3%. “O povo do vulgo” estaria entre os 97% restantes.)

O apóstolo Paulo, “nascido fora de tempo” (1 Coríntios 15:8), foi claramente uma exceção à regra dos pescadores “sem letras”. Paulo era um homem altamente capacitado no conhecimento da Torá (Gálatas 1:14). No entanto, é interessante notar que o entendimento que Paulo tinha da Torá, antes de sua conversão, não o levou a reconhecer Jesus como o Messias. Pelo contrário, sua grande sabedoria o levou a perseguir Jesus e, por extensão, o corpo de Cristo, a igreja. Na verdade, uma tragédia marcante nos evangelhos é que a grande maioria da elite religiosa judaica nunca reconheceu Jesus como o Messias, apesar de Ele ser o cumprimento de toda a sua devoção e estudo reverente da Torá. “Examinai as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (João 5:39). É claro que o apóstolo Paulo soube usar sua educação como ferramenta para alcançar seus irmãos judeus, “porque com grande veemência refutava publicamente aos judeus, demonstrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo” (Atos 18:28), e para apresentar com clareza o evangelho tanto aos judeus quanto aos gentios.

Pedro e João não possuíam nenhuma credencial acadêmica religiosa. Eram homens comuns. Esse é o ponto. Deus não precisava de credenciais acadêmicas; tudo o que Ele precisava eram pessoas dispostas a segui-Lo. Deus qualificaria os “não qualificados”. Deus decidiu usar um grupo de pessoas que não pertenciam à estrutura religiosa organizada para serem Seus principais discípulos. Esse modelo de Deus usar “pessoas do vulgo” é comum. Paulo o expressa claramente em sua carta aos Coríntios:

“Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres; mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis do mundo, e as desprezadas, e as que não são, para aniquilar as que são.” (1 Coríntios 1:26-28)

A segunda parte de Atos 4:13 diz: “e reconheceram que eles haviam estado com Jesus”. Os líderes religiosos perceberam que Pedro e João eram homens “sem letras”, mas também notaram que “haviam estado com Jesus”. Essa segunda frase responde à pergunta sobre as “credenciais” cristãs para servir ao Mestre. Em termos simples, a qualificação dos discípulos estava enraizada na intimidade com Jesus, e não no estudo meticuloso da Torá, do Talmud ou da Halachá. Jesus não enviou os apóstolos a uma yeshivá religiosa. Ele pediu que O seguissem.

A condição de Pedro e João como “homens do povo” e “sem letras” deveria ser uma mensagem importante para a igreja atual. Primeiro, é uma grande palavra de encorajamento para aqueles que acreditam que Deus não pode usá-los por causa de suas deficiências pessoais. A falta de formação formal, dificuldade de fala, aparência, falta de confiança, falta de eloquência, sotaque, condição social, entre outros, não são impedimentos no Reino! A falta de qualificações humanas pode, na verdade, ser nosso maior recurso. Quando não temos educação, nome ou aparência especiais, somos obrigados a confiar completamente em Jesus, que se torna nosso qualificador instantâneo e mais poderoso. Qualquer homem ou mulher que tenha passado tempo suficiente a sós com Jesus terá um impacto infinitamente maior em uma congregação (ou entre os incrédulos) do que a pessoa que sobe ao púlpito sem nada além de um doutorado, carisma e conhecimento de grego clássico. A igreja precisa de homens e mulheres que tenham estado com Jesus! Em última análise, Jesus é a escola. Ele é a educação.

Em segundo lugar, a condição de “sem letras” de Pedro deveria ser uma forte palavra de advertência para as igrejas que frequentemente excluem da liderança as pessoas “sem letras” e “sem formação”. Uma porcentagem significativa das igrejas nos Estados Unidos excluiria Pedro e João da liderança por causa da falta de educação formal. Que prejuízo para o Reino quando criamos barreiras para o serviço! Quantos homens e mulheres foram ungidos pelo Espírito Santo para edificar o corpo de Cristo, mas foram impedidos por não terem conhecimento de grego, hebraico, história da igreja ou teologia sistemática?

Depois de oito anos de estudos universitários, eu pensava que tinha muito a oferecer ao corpo de Cristo. Meu primeiro cargo pastoral foi em uma igreja rural na Carolina do Norte. Eu estava ansioso para usar as ferramentas que havia adquirido ao longo de muitos anos de estudo. A maioria dos membros da igreja trabalhava na agricultura, na indústria têxtil, no transporte ou na produção. Alguns meses depois, conheci um ex-fazendeiro e caminhoneiro chamado Ralph Campbell. Não tenho certeza se Ralph chegou a frequentar o ensino médio, mas ele conhecia Jesus de uma forma que eu nunca havia visto antes. Essa intimidade com Cristo gerava um poder e uma convicção que raramente se encontram no púlpito da elite. Imediatamente compreendi que essas eram “credenciais” que só podiam ser dadas às pessoas que haviam passado tempo com Jesus (Atos 4:13). Essas credenciais não são concedidas por uma academia, mas pelo próprio Espírito Santo. São pessoas que Deus usa para transformar o coração dos homens.

Não se trata de desmerecer a educação religiosa. Deus concede sabedoria por meio do dom do ensino e da pregação, e a universidade e o seminário certamente são veículos para o crescimento e ao alcance da maturidade espiritual. Como foi mencionado anteriormente, Paulo fazia parte da “instituição religiosa” e sua apresentação do evangelho foi incomparável. Ao mesmo tempo, devemos lembrar que Deus frequentemente escolhe os “não qualificados”, os “não capacitados” e os “ninguéns” do mundo. Deus costuma trabalhar fora de nossas estruturas religiosas organizadas. Os “sem letras” são menos propensos a confiar em seu “kit de ferramentas” do seminário. Eles tendem a dar a glória a Deus quando as pessoas se maravilham com a forma como Jesus usou um vaso tão “fraco”.

A igreja não deve desprezar a função da educação formal, mas deve reconhecer que a educação formal não é, por si só, uma credencial espiritual. O chamado de Deus é que nos qualifica, e é o Espírito Santo quem nos ensina (João 14:26). Deus não chama apenas os Paulos deste mundo, mas também os Pedros, Tiago e João. A qualificação suprema é a voz de Deus, Seu toque, Seu poder e Sua vida.

Escrito por: “Sky Cline” publicado em ev.bible.com

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